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O TRIBUNO
A voz do povo, o bastião da democracia.
Carazinho, sexta-feira, 03 de abril de 2009 
Redação
 
Nossa Amazônia é aqui!
  Enquanto nos escandalizamos juntamente com o resto do mundo, 
 frente aos danos ambientais à Amazônia, bem aqui, diante de nós, soturnas ameaças se insurgem. 
  
O cobiçado da vez é o nosso Matinho do Sabiá. 
  
          Pequena área de terras situada a menos de 100 metros da avenida principal da cidade, abaixo do conhecidíssimo “Bigode do Prefeito”, este matinho chegou até aos dias de hoje trazendo uma mostra da multimilenar evolução da mata atlântica da nossa região.  Isto, graças ao empenho dos muitos aguerridos defensores da área, o que ficou bem registrado pela mídia, que sempre o acompanhou.  Campanhas de educação ambiental e limpeza foram inúmeras.  Em sua defesa, ao longo de anos, que já se contam em décadas, participaram desde estudantes até o pessoal da terceira idade.  Também grupos de escoteiros, organizações não governamentais, entre muitas outras.  Agora, a área recebe nova ameaça. 
  
          Estudioso do comportamento animal há mais de 30 anos, o zootecnista e pesquisador Marcelo De Negri Xavier também ficou preocupado com algumas das propostas que ouviu na noite de quarta-feira, 1º de abril de 2009, no auditório do Sindicato Rural de Carazinho.  “Parece coisa do folclórico 1º de Abril, mas infelizmente não é.  Gente séria testemunhou o que, no meu entendimento, é uma inquietante ameaça à integridade do bioma local.  Uma delas, é se fazer uma estrada para caminhadas ao redor do matinho, o que no meu entendimento, exporia à influência externa urbana também as outras duas faces do quadrilátero, hoje protegidas por inacessíveis, amparadas pelos fundos comumente murados dos terrenos vizinhos. 
  
          Outra proposta, que segundo o pesquisador traria danos, é o estabelecimento de trilhas para passeio e visitação ao interior da área.  “Eu cheguei a comentar isto na reunião: o ambiente é pequeno e frágil.  Isto é como se diz no nosso jargão ambiental: “muitas pessoas não conseguem ver a floresta por causa das árvores”.  Ou seja, pessoas não iniciadas, ou menos sensíveis às questões da natureza original que a cercam, não percebem com clareza o quanto tem além das árvores.  De bactérias e fungos imprescindíveis para a reciclagem de nutrientes, passando por répteis, aves, mamíferos, epífitas (plantas sobre árvores) como as orquídeas, etc.  Uma verdadeira infinidade de espécies que chegou até nós, nos dias de hoje, e ainda está ali, no centro da cidade, e que ainda nos assiste preservar”. 
  
          — E aquela história do tal “pula-pula-assobiador”?  
          — Esta, que eu falei lá na reunião, — explica Marcelo, — também pode ter sido interpretada por alguns como brincadeira de 1º de abril, mas não é.  O tal bicho realmente existe na área.  Trata-se do Basileuterus leucoblepharus, que é uma pequena ave que vive à baixa altura no mato.  Ela prefere matas sombrias e úmidas, exatamente como é o Matinho do Sabiá.  Bem, o que eu comentei, é que esta espécie típica das nossas matas mais preservadas, costuma achegar-se ao bicho predador que invade seu território, inclusive ao homem, e profere seu canto de alerta e de dominação territorial.  O que dá a falsa impressão de que o bichinho é manso e não se importa com a nossa presença.  Está sim estressado, e num enfrentamento desigual em relação a nós.  Ocorre que com a evolução simpátrica com outras espécies, elas também aprenderam que aquele canto é de perigo.  Diante deste sinal sonoro, toda a redondeza que o escuta fica em alerta.  E seu canto pode ser ouvido por eles a quilômetros de distância.  São os meios de comunicação da selva.  Como a área é bem menor que isto, uma simples entrada de pessoa no local causa um transtorno que pode levar horas para se espairecer. 
  
          — Então, na sua opinião, o matinho deveria ficar intocado?  
          — Muito pelo contrário!  Deve ser aproveitado exaustivamente, mas de forma sustentável.  Entre outros estudantes, temos hoje em Carazinho até os do curso de biologia.  Nada mais apropriado que sejam conduzidas no local inúmeras pesquisas científicas.  Assim, se poderia mensurar mais apropriadamente as influências diversas que agem na área.  Para estudar o papagaio-charão, por exemplo, eu já passei diversos dias, desde antes do amanhecer, até depois do anoitecer, dentro de uma barraca camuflada semitransparente instalada próxima a ninhos.  Falar com propriedade sobre um assunto demanda algum esforço.  E é isto que uma pesquisa científica ordena e lastreia.  Anos de estudos multidisciplinares, em variadas frentes e ângulos, poderiam nos dar maior segurança para qualquer tipo de uso do local.   
  
E em se tratando de natureza, a lei é bem clara, e rege pelo princípio da precaução, da prevenção. 
Ou seja, in dubiu, não se mexe. 
 
 
 

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